Conto: “Dividindo a namorada”

Dividindo a namorada.
Feliz da vida, Naty disparou para o quarto. Pegou o diário e a caneta e começou a metralhar tinta pink nas páginas:

“Segunda-feira, Dia dos Namorados, tardinha.

Que show de bola, diário! Diogo aceitou me dividir com ele!

Mas como foi difícil, meu namorado não é mole, não, mais parece um homem das cavernas, diz que namorada dele só deve ter olhos pra ele, pode? Hoje mesmo, pela manhã, ele me falou isso. Depois, cedeu.

Foi preciso um mês pra eu convencer o cara. Me tornei mais atenciosa com ele, mais carinhosa, mais obediente… Até trocar as minissaias pelas calças compridas, troquei. Menos batom, menos blush, menos sombra, menos riso… A mais, só a roupa e o grau de comportamento. Tolice! Eu já tava ficando histérica de tanto esperar pelo sim dele, quando, há pouco, ousei dizer ao teimoso:

— Cansei de ser enrolada por você, Diogo, e eu não sou fio pra isso. Te amo muito, mas das duas, uma: ou você aceita, pra valer, me dividir com ele ou a gente rompe o namoro agora. Tô falando sério!

— Eu não posso te dividir com ele! — ele me respondeu, impaciente.

— Você já me dividiu com tantos outros, rapaz, qual é agora, hein?

— Só que os outros de antes não eram ele…

— Ah, é, mocinho? Então, qual a diferença entre os outros e ele, quer me dizer?

— Não gosto dele. Simplesmente não gosto, Naty.

— Por quê? Você sempre foi tão nem-aí pros outros… Para com esse ciúme bobo, cara. Estamos nos tempos modernos, Terceiro Milênio, lembra? Robôs, Internet, supercelulares…

— Mas isso tudo aí não me deixa bolado, não. O que você quer fazer, ficando com aquele outro lá, isso, sim.

Relaxei. Tentando entender melhor aquela cabecinha, perguntei com ternura:

— E você tem medo do quê, hein, amor?…

— Te perder, Tatá — a resposta foi de pronto!

— Me perder?… — me surpreendi.

— É. Sempre que você tá com qualquer outro, eu me sinto vaziozão, entende? É como se ele tivesse arrancado você de mim pra sempre!

— Diogo… que coisa sem noção! — Era sem noção mesmo.

— Sem noção? Vai que você se empolga com esse aí, resolve se aventurar mais com ele do que com os outros, aí me esquece e me abandona, né?!

Inacreditável, aquilo! Como diria o outro daquela novela que acabou, eu devo ter pintado de ruivos os cabelos de Sansão, pra ter que ouvir uma coisa daquelas! Bom… mas respirei fundo. De surpresa, beijei Diogo ardentemente, como nunca tinha beijado antes, pra tranquilizar o coração dele; depois, aproveitando o desarmamento do babaca, confessei:

— Nunquinha que vou te deixar, Diogo. Eu te amo! Olha, sou apaixonada por tudo em você: teus olhos, tua boca… teu cheiro, esse teu cabelo espetadão… tuas roupas largadonas, tua ideologia não-às-drogas… Até por teu mau-humor, sabe? Sou completamente doida por você, mas… também tô loucamente apaixonada por ele, e isso desde que a Silvinha me falou dele, me apresentou a ele na casa dela… Ah, quero tanto poder ficar com ele sem ter que abrir mão de você, neném… Será que não dá pra compreender isso?

— Não — respondeu, seco.

— Não? — cansei. Fui ríspida: — Então prefere que eu fique com ele às escondidas?

— Você não seria capaz — duvidou, baqueado.

— Sou, e não há quem me impeça! — contra-ataquei. — Você não é meu dono, cara, helloou!…

Helloou, uma ova!

— Tudo bem, trégua. Vem cá, me diz uma coisa, sinceramente: do que mais você não gosta nele? Já me dividiu com tantos… Do que mais, exatamente?

— Exatamente, exatamente… do nome dele, tem uma palavra de que eu não gosto… — e me disse qual era a palavra.

Só por aquilo?! Ah, meu amor por Diogo se agigantou naquele momento. Beijando a orelha dele ao mesmo tempo em que eu lhe afagava os cabelos, senti que ele tinha me dado a permissão pra eu ficar com os dois.

Antes de a gente se despedir, Diogo me prometeu trazê-lo pra dormir comigo, ficar comigo. Quando ele promete, cumpre, chova ou faça sol! É como promessa divina. Bom, mas chega de papo, Diário, que, daqui a pouco, os dois vão estar aí. Tenho que me cuidar. Preciso realçar minha beleza!”

Diário devolvido ao lugar de sempre, Naty partiu pro ritual da beleza, a gata considerava um ritual o se produzir.

Despida, parte do corpo imersa nos sais de banho, nas ervas aromáticas, ela brincava com as bolhas. Pose sensualíssima, bastante espuma pra soprar. Autoabraço, relaxamento. Prazer. Alegria no cair daquela noite gostosa e curitibana de inverno.

O quarto, na penumbra lilás do abajur, aquecia-se só de abrigar a ninfeta a se secar e vestir. O minivestido branco, sobre a pele bronzeada, incrivelmente alheia ao frio, lhe caiu como uma luva; o batom vermelho, mais ainda na boca louca. Cabelos úmidos, cheiro de rosas, ela se contemplou através do imenso espelho. Belíssima!

Toque de campainha!

— São eles! — vibrou, indo atender sobre saltos altos também vermelhos; o corpo, tão candente quanto o coração, prestes a explodir de êxtase.

Eram eles, sim. Mas nem deixou Diogo abrir a boca, sequer entrar. Apenas o outro. Só o outro. Tudo seria para o outro naquela noite. Tirou a “roupa” dele, que a impedia de vê-lo como realmente era, e o levou ao quarto, deitou-se em sua companhia. Havia muito tempo que esperava por isso, para tê-lo no Dia dos Namorados. E o encheu de beijos, de abraços… Ia dormir com ele, nem acreditava!

No dia seguinte, começou a devorá-lo. O papel de presente, a “roupa” dele, ainda repousava no chão da sala, junto à porta.

Diogo tinha deixado de fricotes e havia comprado o “outro” pra ela. O romance A menina que roubava livros, o book dos sonhos de Naty, pela excelente história! De família muito religiosa, Diogo não gostava do nome roubava no título.

Eles até que poderiam ler juntos, não é mesmo? Pena Diogo não apreciar a leitura…
 

(Recriado do meu texto O conto do diário, de 09-06-2007)
 

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Izan Sant

Izan Sant

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Aniversariantes

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  • Pricila Barbosa (univ., Jaboatão dos Guararapes)
  • Rodrigo Raposo (jornalista e cantor – Recife)
  • Rosângela Tavares (profa./Português – Paulista)
  • Saile Campos (comunicadora social, Abreu e Lima)
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  • Silvana Lima (sócio-prop. Zero81 Comunic., Olinda)
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  • Walter Gabriel (aposentado – Ilha de Itamaracá)
  • Wesley Eure (actor/singer/author/producer/director)
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Eventos

  • 01. Em SANTO ANTÔNIO DA PLATINA/PR: “Sequestro121 – Heróis às Avessas”, com ALEXANDRE CONTINI e CARINA SACCHELLI – 20h – Sesi Santo Antônio da Platina
  • 02. Em LONDRINA/PR: entrevista com o cantor TOFALINI – 19h – Rádio Brasil Sul
  • 04. Em LONDRINA/PR: show com o cantor TOFALINI – a partir da 1:00h AM – CooL Eventos / Rua José Roque Salton, 33
  • 05. Dias 4 e 5, em LONDRINA/PR: “Sequestro121 – Heróis às Avessas”: ALEXANDRE CONTINI e CARINA SACCHELLI – 19:30h – Centro Cult. Sesi
  • 17. Em CAMBÉ/PR, show: cantor TOFALINI, 19:30, Noruega Espetinhos, Rua Noruega, 214, Centro
  • 18. Em APUCARANA/PR: Show “Quem Não Bebe Beija”, com TOFALINI e GIOVANI FELIX, 21h – BISTRÔ PUB HOUSE / Av. Carlos Schmidt, 112 – Reservas: 43-98806-6705, Inf.: 43-99104-8889
  • 25. OLINDA: LAURA PAUSINI – Cadeira: R$ 300, R$ 150 (meia); Cadeira VIP: R$ 400 – Vendas: bilheteria do Teatro Guararapes, lojas TicketFolia (Shoppings Recife, Guararapes, RioMar, Tacaruna e Boa Vista) e site www.evemtim.com.br / Classic Hall

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