Na Páscoa, uma heroína


Janete desceu as escadas da paupérrima pensão correndo, morta de medo da mãe, que chamava por ela bravíssima, lá de baixo. Pôs-se diante daquela mulher azeda e sem amor, de olhos grandes e cruéis. Sempre vestida de negro, a cascavel: luto pelo esposo havia um mês.

Ovos de Páscoa.— Não me ouviu te chamar, não, foi, peste?! — indagou, dando-lhe um puxão de orelha que quase fez a linda garotinha de 8 anos chorar. — Agora deixa de preguiça, demônio, e vá comprar os pães e os ovos de Páscoa pra nossa ceia! Ovos menorzinhos, que tão pela hora da morte, né?

Eram 18 horas.

Vermelha e com os azuis olhinhos numa enxurrada, Janete pegou a mochila de pão das mãos da bruxa e disparou para o mercado, a uma considerável distância. A mãe lhe dera só 5 minutos, e ai da filha se ultrapassasse um segundo sequer! A cinta iria cantar!

Mas, criança, acabou se distraindo, esquecendo a vilania da genitora. Para as crianças a vida é mesmo bela, bastou ouvir um trecho de uma bobinha música infantil tocando num rádio de um boteco, que parou e começou a dançar e a cantar junto com a voz do intérprete:
 

Carneirinho, carneirão, neirão, neirão,
Olhai pro céu, olhai pro chão, pro chão, pro chão!
Peço a Deus, Nosso Senhor, Senhor, Senhor,
Para nos abençoar!
 

Ela, cantando o bis, deu adeus aos problemas, a mochila bailando na mãozinha. Os pisca-piscas das estátuas de coelhinhos, em poucos pontos da rua, ajudavam a adornar o seu mundo colorido de momento.

O pai de Janete morrera assassinado em um assalto, no centro de Porto Alegre. A mãe tocava a pensão, no subúrbio de Gramado, cada vez mais sem paciência, para a crucificação da garota, vítima diariamente de pequenas ou grandes agressões que revoltavam alguns hóspedes, mas que nada podiam fazer — achavam eles. A última rendeu à criança um olho roxo, pelo banal motivo de ter caído no sono, à tardinha, e esquecido a hora de ir comprar manteiga. E não só fazia isto, era a escrava da casa. Um caos, o relacionamento mãe/filha na "Pensão do Amor".

Mas teria a cobra, alguma vez, deixado o amor entrar ali? Alguns duvidam até hoje.

Janete ia caminhando felicíssima pela ruela de simpáticas casinhas quando, de repente, sentiu-a erma. Não viu mais ninguém depois que uma senhora entrou às pressas em sua casa, com uma criancinha de colo. A garota só registrou o olhar da mulher dirigido a um beco próximo. Miados e miados, que eram ouvidos, saíam dele. Corajosa, Janete foi até lá e espiou. Dentro, numa penumbra, um tipo malandro de homenzarrão, asqueroso, troglodita, talvez presidiário em fuga, começava o estrangulamento de um gato malhado, provavelmente de rua, que se debatia, tentando se libertar.

— Larga ele, moço! — bradou Janete, avançando para o estranho, em defesa do animal. — Não vou deixar você matar o bichinho, larga ele!

Briga travada? Luta corpo a corpo (desigual e absurda)? Ninguém, mesmo, em socorro de Janete e do gatinho?

O fato era que o bichano seria a comida do dia do monstro, dá para imaginar? Loucura do mundo incompreensível e sem oportunidades de hoje, que Deus nos socorra!

No dia seguinte, deu no jornal:

"Criança morre em nome da vida".

Manchete para a profunda tristeza de dona Custódia, a mãe da garota. A cascavel nunca se perdoou por aquele dia, nem por todos os outros que vieram, nem pelo vasto número de maus tratos feitos à filha. Arrependimento de matar, monstruoso mesmo, naquele Dia Santo. Infelizmente, tarde demais.
 

Recriado do meu conto original “Uma heroína”, de 2008.
 

Foto: Wikipédia (Sem restrição de uso e modificação)               Curta o Papo AQUI.   

Izan Sant

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